UM COMENTÁRIO SOBRE A VIOLÊNCIA – Gary L. Francione

É interessante fazer um contraste de informações, anteriormente a esta está a noticia de um grupo de libertação animal que invadiram um laboratório de estudos na USP em São Paulo, nesta coloco um texto que saiu no blog oficial de Gary L. Francione, é um ótimo momento para todos nós efetuarmos decisões e opiniões sobre o uso de violência para a não violência, usar de ações físicas não pacificas para libertar os animais. O que você acha a respeito?
Se ainda não se decidiu, leia os dois últimos posts e mãos a obra!

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© Tradução autorizada: Regina Rheda

regina.rheda@yahoo.com.br

© Ediciones Ánima – Publicado em http://www.anima.org.ar/

Texto pertencente ao Blog pessoal de Gary Francione
13 de agosto de 2007

Perguntam-me, com freqüência, qual a minha posição quanto às pessoas que apóiam o uso da violência contra os exploradores de animais.

Minha resposta é simples: eu sou violentamente contra a violência.

Tenho três razões para minha posição.

Primeiro, na minha opinião, a posição dos direitos animais é a rejeição final à violência. É a afirmação última da paz. Eu vejo o movimento pelos direitos animais como a progressão lógica do movimento pela paz, que procura cessar os conflitos entre os humanos. O movimento pelos direitos animais procura, idealmente, dar um passo adiante e cessar os conflitos entre os humanos e os não-humanos.

A razão pela qual nós estamos nesta confusão global de agora é que, ao longo de toda a história, praticamos, e ainda continuamos a praticar, atos de violência que tentamos justificar como um meio indesejável para chegar a fins desejáveis. Qualquer pessoa que já tenha usado de violência alega que lamenta ter precisado recorrer a ela, mas argumenta que um objetivo desejável justificou seu uso. O problema é que isso possibilita um ciclo interminável de violência, onde qualquer pessoa com uma forte convicção a respeito de alguma coisa pode adotar o uso da violência contra os outros como um meio para a finalidade de um bem maior, e aqueles que são o alvo dessa violência podem encontrar uma justificação para sua própria resposta violenta. E assim por diante.

Isso se trata de um pensamento moral conseqüencialista, e está destruindo o mundo e levando a algumas estranhas contradições. Uma grande parte do Ocidente afirma abraçar o cristianismo. Ainda que o Novo Testamento não seja muito claro sobre algumas questões, certamente deixa claro que a violência deve ser rejeitada. No entanto, líderes supostamente cristãos, junto com seu eleitorado supostamente cristão, justificam as mais violentas ações com uma pretensa grande relutância, a fim de obter um suposto bem maior, seja lá qual for. Aqueles contra os quais esses atos de violência são perpetrados também alegam abraçar religiões que rejeitam a violência, mas acham justificável usar a violência para responder ao ataque. Então, temos toda essa gente alegando que rejeita a violência por uma questão religiosa fundamental, mas praticando a violência mesmo assim. E nós dizemos que os humanos são racionais e os animais, não!

A violência trata os outros como meios para os fins de alguém, em vez de tratar os outros como fins em si mesmos. Quando praticamos violência contra os outros—humanos ou não-humanos—ignoramos o valor inerente deles. Nós os tratamos apenas como coisas que não têm nenhum valor, exceto o valor que decidimos lhes dar. Isso é o que leva tanta gente a cometer crimes de violência contra pessoas de cor, mulheres, gays e lésbicas. Isso é o que nos leva a usar animais não-humanos como mercadorias e tratá-los como recursos que existem exclusivamente para nosso uso. Tudo isso é errado e deve ser rejeitado.

Segundo, na opinião daqueles que defendem a violência, contra quem, exatamente, essa violência teria de ser dirigida? O fazendeiro cria animais porque a esmagadora maioria da humanidade exige carnes e outros produtos animais para comer. O fazendeiro cria esses animais em condições intensivas porque os consumidores querem que as carnes e os outros produtos animais custem o menos possível. Mas será que o fazendeiro é o único culpado? Ou a responsabilidade também é daqueles entre nós que comem produtos animais—incluindo todos os onívoros conscienciosos, aqueles não-veganos “que se importam com os animais” e consomem ovos de galinhas “livres de gaiolas” e carne “feliz”— e criam a demanda à qual atendem os fazendeiros que, de outra maneira, estariam fazendo outra coisa da vida? Suponho que seja mais fácil caracterizar os fazendeiros como “o inimigo”, ignorando a realidade da situação.

E quanto ao vivisseccionista, um alvo comum daqueles que defendem a violência? Fora a discussão sobre a vivissecção realmente produzir, ou não, dados úteis para lidar com os problemas de saúde humana, a maioria das doenças para cujo tratamento os vivisseccionistas estão usando animais poderia ser inteiramente evitada, ou drasticamente reduzida, se os humanos parassem de comer alimentos provenientes de animais e abandonassem comportamentos destrutivos como o hábito de fumar, de beber álcool em excesso, de usar drogas e de não se exercitar. De novo: quem é o verdadeiro culpado? Eu certamente não penso que a vivissecção seja justificável por qualquer razão que seja, mas acho curioso que aqueles que defendem o uso da violência possam ver os vivisseccionistas em separado, como se os vivisseccionistas não estivessem ligados às condições sociais que deram um lugar à vivissecção—e quanto a essas condições, todos nós somos cúmplices.

Além do mais, não devemos esquecer que há sempre inúmeras formas de abordar os problemas de saúde. A vivissecção é uma delas, e, na opinião de muitas pessoas (inclusive na minha), não se trata de uma escolha particularmente eficaz. A decisão de investir recursos sociais na vivissecção, em vez de investir em outras formas provavelmente mais eficazes, reflete uma decisão tão política quanto, ou provavelmente mais política do que, científica.

Por exemplo, as consideráveis despesas com as pesquisas da AIDS usando animais produziram pouca coisa de útil para os humanos com AIDS, e a maior parte daquilo que resultou em vidas melhores e mais longas para os pacientes de AIDS e HIV veio de testes clínicos feitos com humanos que haviam dado seu consentimento para esses testes. Certamente é plausível afirmar que se o dinheiro gasto na pesquisa com animais houvesse sido gasto em campanhas públicas educativas sobre sexo seguro, em troca de seringas e em distribuição de preservativos, o índice de novos casos de HIV despencaria. A escolha de fazer experimentos com animais para tratar do problema é, em vários aspectos, uma decisão tão política quanto social. A experimentação animal é considerada uma forma aceitável de resolver o problema da AIDS, enquanto as questões da troca de seringas, da distribuição de preservativos e da educação sobre sexo seguro são politicamente controvertidas.

Então, de novo, o vivisseccionista não é o único culpado nessa história. Na realidade, pode-se argumentar que os principais responsáveis pelo uso de animais na pesquisa da AIDS são os políticos reacionários que atendem às vontades de uma base política reacionária, a qual rejeita formas mais eficazes de se lidar com a AIDS.

Terceiro, não está claro, para mim, o que é que os apoiadores da violência esperam alcançar na prática. Certamente eles não estão fazendo o público ver com mais simpatia os interesses dos animais não-humanos. É bem possível que o contrário seja verdadeiro e, quanto à percepção do público, essas ações tenham um efeito negativo. Vivemos num mundo onde praticamente qualquer pessoa com condições de comer produtos animais come esses produtos. Um mundo assim não oferece nenhum contexto em que o uso da violência possa ser interpretado de outra forma que não negativa.

Em outras palavras, em um mundo em que comer produtos animais é considerado, pela maioria das pessoas, tão “normal” ou “natural” quanto beber água ou respirar ar, é bem provável que a violência seja vista apenas como um ato insano e não contribua em nada para promover uma reflexão social mais avançada a respeito da questão da exploração animal.

A exploração animal permeia toda a nossa sociedade. Isso ocorre porque pensamos que os fins (os supostos benefícios que obtemos a partir do uso de animais) justificam os meios (a imposição de sofrimento e morte a bilhões de não-humanos anualmente), e também porque tratamos os animais exclusivamente como mercadorias e ignoramos seu valor inerente. Não dá para tratar dessa situação de maneira séria e significativa aplicando essas noções para justificar a violência contra humanos.

O fato de que pelo menos alguns “defensores dos animais” que apóiam a violência nem sequer sejam veganos é de nos deixar perplexos. Essas pessoas se importam com os animais a tal ponto que elas defendem ações para causar dano aos humanos que os exploram, mas parecem não poder, elas mesmas, parar de explorar animais.

A conclusão é clara. O único meio de um dia podermos ter um impacto significativo no problema é a educação não-violenta. E isso começa com nossa iniciativa de nos tornar veganos, rejeitando a violência contra os animais em nossas próprias vidas, e se difunde por meio da educação vegana criativa não-violenta.

Pretendo tratar desta questão com mais profundidade em ensaios futuros, mas já quis compartilhar algumas reflexões preliminares com vocês.

 

***

Gary L. Francione   Gary L. Francione
gfrancione@kinoy.rutgers.edu

Professor de Direito e Filosofia na Rutgers University, EUA. Conhecido internacionalmente por sua teoria de direitos animais abolicionista, é um crítico implacável das leis do bem-estar animal e da condição de propriedade dos não-humanos.

Tradutora autorizada

Regina Rheda
regina.rheda@yahoo.com.br

Escritora premiada, vegana desde o ano 2000 e mora nos EUA. Traduziu o livro Jaulas Vazias, de Tom Regan (Editora Lugano). Seu website é http://home.att.net/~rheda/RRHPPortg.html.

Aviso: O professor Gary L. Francione não apóia, necessariamente, pontos de vista expressos nesta publicação, fora aqueles que ele defende em textos de sua própria autoria.

About Alex Avancini

Alex Avancini é anti-especista e incentivador da ação pelos direitos dos animais não humanos.

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