Argumentando: Como é ser uma abelha?

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Por muito tempo imaginou-se que os animais, e em particular os insetos, fossem criaturas simples, reflexas, com comportamentos instintivos fisicamente determinados; atualmente essa idéia está sendo revista: hoje se sabe que eles podem até fazer escolhas
por Christof Koch
© ISTVAN FERGE/SHUTTERSTOCK

Quer você esteja sobre uma moto avançando sinuosamente pelo tráfego, correndo pelas montanhas, dançando um rápido rock`n`roll, lendo um livro cativante, fazendo amor ou discutindo com um amigo, os olhos, ouvidos, sensores de pele e dos órgãos pintam a cada momento, na tela da mente, um quadro absorvente do exterior – inclusive de seu próprio corpo. Desconfio que essa sensação não seja diferente do modo como os animais vivenciam conscientemente o mundo. Exceto, talvez, pelos grandes primatas antropomorfos e alguns outros animais privilegiados com grande cérebro, a maioria das espécies não possui o senso altamente desenvolvido do eu, a capacidade de refletir sobre si mesmo, que os seres humanos têm. A maioria dos biólogos e donos de bichos de estimação está disposta a conceder consciência a gatos, cães e outros mamíferos. Contudo, nossas intuições nos decepcionam inteiramente quando consideramos peixes e pássaros, para não falar de invertebrados como lulas, moscas ou vermes. Será que eles vivenciam as visões e sons, as dores e os prazeres da vida? É claro que eles não podem ser conscientes – parecem muito diferentes de nós, estranhos demais.

Imaginava-se há muito tempo que os insetos, em particular, fossem criaturas simples, reflexas, com comportamentos instintivos fisicamente determinados. Não mais. Consideremos as assombrosas capacidades das abelhas melíferas, Apis mellifera. Os pesquisadores Martin Giurfa, Mandyam Srinivasan e Shaowu Zhang, o primeiro da Universidade de Toulouse, na França, e os dois últimos da Universidade Nacional Australiana de Canberra, treinaram abelhas soltas, utilizando água açucarada como recompensa, em uma variedade de complexas tarefas de aprendizado. Os neuroetologistas ensinaram as abelhas a voar para dentro e para fora de altos cilindros com uma única via de entrada e dois orifícios de saída. Cada inseto precisava escolher uma das duas saídas do cilindro e continuar o vôo. Esses cilindros foram dispostos em ângulos para formar labirintos com vários níveis de pontos de ramificação em “Y” que as abelhas encontravam antes de chegar à estação de alimentação desejada. Em um conjunto de experimentos, os cientistas treinaram as abelhas uma trilha de marcas coloridas, como em uma gincana. Elas poderiam então usar – mais ou menos – a mesma estratégia em um labirinto inteiramente desconhecido. Surpreendentemente, conseguiram usar a cor de maneira abstrata, virando para a direita, por exemplo, quando o ponto de ramificação era azul, e para a esquerda quando era verde. Individualmente, animais desenvolveram estratégias bem sofisticadas, como a regra de “virar à direita”, que sempre levava à meta, embora não necessariamente pela rota mais curta.

Nos seres humanos, o armazenamento de curto prazo de informações simbólicas – como quando colocamos o número de telefone de um conhecido na memória do celular – está associado a um processamento consciente. Seriam as abelhas capazes de lembrar de informações relevantes à tarefa? Um teste costuma ser utilizado para avaliar a existência de retardo: o indivíduo olha para um quadro por alguns segundos. A imagem-teste então desaparece por 5 ou 10 segundos. Subsequentemente são mostrados dois quadros um ao lado do outro e o animal precisa optar, apertando uma alavanca ou movendo os olhos, para indicar qual das duas imagens era a imagem-teste. Isso poderá ser corretamente realizado se ele se lembrar da figura. Numa versão mais complexa, a tarefa de escolha diferente do modelo para retardo (EDM-R), exige uma etapa adicional de processamento: a opção pela imagem oposta àquela anteriormente mostrada.

Embora não possamos esperar que abelhas apertem alavancas, elas podem ser treinadas para pegar a saída da esquerda ou da direita dentro de um cilindro modificado para o teste. Um disco colorido serve como um sinal na entrada do labirinto, de forma que a abelha o veja antes de começar o percurso. Uma vez lá dentro, ela precisa escolher o ramo que exibe a cor que corresponde (ECM-R) ou não corresponde (EDM-R) à cor da entrada. As abelhas realizam bem as duas tarefas. E até generalizam para uma situação que nunca encontraram antes. Isto é, uma vez treinadas com cores, elas “entendem” e podem seguir uma trilha de listras verticais, se um disco com grades verticais estiver à esquerda da entrada do labirinto. Esses experimentos demonstram que as abelhas aprenderam uma relação abstrata independentemente da natureza física dos estímulos.

Esses estudos não provam que as abelhas são conscientes, mas indicam que até este momento não temos motivo para duvidar disso. Abelhas são criaturas altamente adaptativas e sofisticadas, com pouco menos de 1milhão de neurônios comprimidos em menos de 1 milímetro cúbico de tecido cerebral e interconectados (de maneiras que estão além do nosso atual conhecimento). A densidade neural do cérebro desses insetos é cerca de dez vezes maior que a de um mamífero, que a maioria de nós considera o ponto mais elevado da evolução deste planeta. Nos seres humanos, a perda generalizada de córtex cerebral, como no caso da paciente em estado vegetativo Terri Schiavo, leva a uma perda irreversível da consciência. Isso não quer dizer que um córtex cerebral seja necessário para consciência em criaturas com uma herança evolutiva diferente.

Abelhas vivem em organizações sociais altamente estratificadas, embora flexíveis, com aptidões como tomada de decisão em grupo que rivalizam, em eficiência, com os comitês acadêmicos, corporativos ou governamentais. Na primavera, quando formam enxames, as abelhas escolhem uma nova colmeia, que precisa satisfazer muitas demandas em dois dias (pense nisso na próxima vez em que sair em busca de um lugar para morar…). Elas transmitem informações sobre o local e a qualidade de fontes alimentares utilizando a dança. Podem voar vários quilômetros e voltar à colméia, numa notável façanha de navegação. Seu cérebro parece ter incorporado um mapa do ambiente. E um aroma levado pelo vento até a colmeia costuma desencadear um retorno ao local onde encontraram anteriormente esse odor. Esse tipo de memória associativa foi divinamente descrito pelo romancista francês Marcel Proust (1871-1922) na obra Em busca do tempo perdido.Dada toda essa habilidade, por que quase todo mundo rejeita instintivamente a ideia de que abelhas ou outros insetos poderiam ser conscientes? O problema é que elas são diferentes demais de nós, humanos. Mas o simples fato de serem pequenas e viverem em colônias não quer dizer que não possam ter estados subjetivos, que não sintam a fragrância do néctar dourado ou calor dos raios solares ou, talvez, até possuiam um senso bastante rudimentar e primitivo do eu. Não estou argumentando a favor do pan psiquismo, da noção de que qualquer coisa seja consciente. Nem afirmo que abelhas possam raciocinar ou refletir sobre seu destino como os insetos dos desenhos animados.O que esse dilema destaca é que não existe uma teoria aceita da consciência, nenhuma hipótese por princípios que nos informe quais sistemas, orgânicos ou artificiais, são conscientes e por quê. Na ausência dessa resposta, devemos, no mínimo, permanecer agnósticos sobre a consciência nessas criaturas. Portanto, na próxima vez em que uma abelha pairar sobre seu suco, afugente-a delicadamente, pois ela poderá ser um ser consciente como você, vivenciando o breve interlúdio na luz, espremido entre esse momento e a eternidade. (– Tradução Vera de Paula Assis)
Christof Koch CHRISTOF KOCH é professor de biologia cognitiva e comportamental do Instituto de Tecnologia da Califórnia, onde ensina e faz pesquisas sobre a base neuronal da atenção visual e consciência há mais de duas décadas.

About Alex Avancini

Alex Avancini é anti-especista e incentivador da ação pelos direitos dos animais não humanos.

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