Peter Singer e a visão bem-estarista de que a vida dos animais não-humanos vale menos

Gary L. Francione
Dom, 05 de Abril de 2009 11:53© 2009 Gary L. Francione
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© Tradução autorizada: Regina Rheda
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© Ediciones Ánima – Publicado em http://www.anima.org.ar/libertacao/abordagens/francione.html

Texto do Blog de Gary L. Francione
16 de março de 2009Texto do Blog de Gary L. Francione
16 de março de 2009

Caros(as) colegas:

Alguns defensores dos animais afirmam que não há nenhuma real diferença entre a abordagem abolicionista e a abordagem neobem-estarista de Peter Singer.

Já discuti as ideias de Singer em ensaios anteriores publicados neste site (vejam, por exemplo, 1 e 2), assim como em meus livros e artigos, num esforço de ilustrar aquilo que vejo como as diferenças teóricas e práticas significativas entre as nossas abordagens. Outro exemplo aparece em uma entrevista recente de Singer. Ele declara:

“Você poderia dizer que é errado matar um ser, desde que esse ser seja senciente ou consciente. Mas então você teria de dizer que é tão errado matar uma galinha ou um camundongo quanto me matar ou matar você. Eu não posso aceitar essa ideia. É possível que seja tão errado quanto, mas todo dia são mortas milhões de galinhas. Eu não consigo pensar que isso seja uma tragédia da mesma ordem que milhões de humanos sendo mortos. Qual é a diferença quanto aos humanos? Os humanos são seres que olham para o que está por vir, e têm expectativas e desejos para o futuro. Esta parece ser uma resposta plausível para a pergunta sobre o porquê de ser tão trágico quando os humanos morrem”.

Singer articula claramente a noção bem-estarista de que as vidas dos animais não-humanos têm menos valor no plano moral do que as vidas dos animais humanos.

Os comentários de Singer são problemáticos por algumas razões. Primeiro, Singer presume que galinhas e outros não-humanos sencientes não são seres capazes de olhar para o futuro. Tive pouca experiência pessoal com galinhas, mas sei o suficiente sobre elas para concluir que seu comportamento não pode ser explicado sem que lhes atribuamos algum tipo de cognição equivalente àquilo que nos parece permitir que os seres humanos possam olhar para o futuro. É evidente que as galinhas têm interesses, preferências e desejos, e são capazes de agir de modo a satisfazer seus desejos e preferências. Quando matamos esses não-humanos, frustramos sua capacidade para desfrutar a satisfação de seus interesses, preferências e desejos — exatamente como é o caso quando matamos humanos.

Tive muita experiência com cães e posso dizer com certeza que ficaria absolutamente surpreso se alguém fosse declarar que cães não são seres capazes de olhar para o futuro ou que eles não têm expectativas e desejos.

A premissa subjacente à posição de Singer é que a única maneira de olhar para o futuro, ter expectativas e ter desejos, é fazê-lo à maneira dos humanos. Mas essa é uma posição claramente especista. Os humanos têm conceitos inextricavelmente ligados à comunicação simbólica. É muito provável que a cognição dos animais não-humanos seja muito diferente da cognição humana porque os não-humanos não usam comunicação simbólica. Mas isso certamente não quer dizer que os não-humanos não vivam fenômenos cognitivos equivalentes.

Segundo, e o que é mais importante, há o valor moral que Singer atribui à capacidade de fazer planos para o futuro. E quanto aos humanos com amnésia global transitória? Eles têm um sentido de si mesmos no presente, mas são incapazes de se lembrar do passado ou de fazer planos para o futuro. Seria moralmente errado matá-los? Claro que sim. Julgaríamos que é pior (moral ou legalmente) matar uma pessoa que não sofra desse problema? Claro que não. Nós consideraríamos as duas mortes igualmente condenáveis porque, em ambos os casos, teríamos privado os humanos de suas vidas, as quais importam para eles. A vida de uma galinha é tão valiosa para ela quanto a minha é para mim, ou quanto a da pessoa com amnésia global transitória é para esta pessoa.

Além do mais, conforme a análise de Singer, a vida de um humano que tivesse mais expectativas e desejos valeria mais do que a vida de um humano que tivesse menos. Então a vida de uma pessoa deprimida, que talvez não esteja particularmente entusiasmada com o futuro ou quanto a fazer projetos para ele, ou a vida de uma pessoa pobre, cujas expectativas e desejos se concentrem na refeição seguinte ou num lugar para dormir naquela noite, vale menos do que, digamos, a vida de um professor de Princeton que tem muitas, muitas expectativas e planos para o futuro.

Os comentários de Singer refletem — mais uma vez — a noção bem-estarista de que nosso uso de animais não é o problema principal, nem mesmo um problema moral, porque, em termos factuais, os animais não têm interesse em suas vidas. Isto é, os bem-estaristas afirmam que os animais não-humanos têm interesse em não sofrer, mas, como não têm interesse em continuar a viver porque não têm expectativas ou desejos para o futuro, nós podemos usá-los para nossos propósitos contanto que os tratemos de modo “humanitário”. Singer aceita claramente o princípio bem-estarista de que os animais não-humanos têm menos valor, no plano moral, do que os humanos. Ele rejeita clara, explícita e repetidamente o conceito de “direitos animais”, apesar de sua afirmação — feita de novo, nesta entrevista — de que ele procurou “criar um movimento pelos direitos animais”.

Os comentários de Singer nesta entrevista não representam nada de novo. Ele vem dizendo essas coisas há anos, a começar pelo Libertação Animal, um livro que não era sobre direitos animais, mas que valeu a Singer o título de “pai do movimento pelos direitos animais”. É espantoso, contudo, que tantos defensores dos animais afirmem que não existe uma real diferença entre a posição de Singer e a abordagem dos direitos animais abolicionista.

A esses defensores que não veem as diferenças, quero expressar meu sincero e profundo desalento.

ADENDO: 22 de março de 2009:

Ontem recebi um e-mail de uma pessoa que assinalou:

Vi recentemente uma palestra de Peter Singer. Fiquei horrorizada, perplexa, ao ouvi-lo declarar explicitamente que matar animais não é um ato especista se for realizado sem dor. Li um pouco do trabalho que você escreveu, e é claro que me oponho àquela declaração. Saí da palestra com raiva, decepcionada: É realmente o autor da “Bíblia do movimento pelos direitos animais” que está me dizendo que está certo matar animais?

Conforme afirmei anteriormente, ninguém deveria se surpreender ou ficar chocado com o fato de Singer não julgar objetável matar animais per se. Ele tem essa postura há pelo menos 33 anos — desde que escreveu Libertação Animal. Singer não considera especista o fato de matarmos animais porque ele não acha que os animais tenham interesse em continuar a viver e, portanto, nós não lhes causamos danos quando os matamos sem dor. Conforme argumentei acima (e em outros lugares), a posição de Singer de que isso não é especista está calcada na premissa explicitamente especista de que os animais só podem ter interesse em continuar vivos se tiverem o tipo de consciência de si reflexiva que associamos aos humanos adultos normais.

O que é surpreendente e chocante é que um movimento pelos “direitos animais” promova o Libertação Animal como a “‘bíblia'” do moderno movimento pelos direitos animais” ou endosse e promova Singer como o “pai do moderno movimento de defesa animal”.

Muita gente critica Singer porque ele caracteriza sua posição como sendo a dos “direitos animais”. Peter certamente não deveria fazer isso, já que está errado e ele sabe muito bem disso, e inclusive já admitiu o erro explicitamente em algumas ocasiões.

Mas a principal responsabilidade é dos defensores dos animais, que, aparentemente, sequer se deram ao trabalho de ler o Libertação Animal antes de transformá-lo na “bíblia” e que, de qualquer forma, não se empenharam em pensar criticamente sobre o significado de “direitos animais”.

Nunca, em toda a história da humanidade, houve um movimento social tão imerso em confusão quanto este.

botao_japublicadoTexto já publicado.




Gary L. Francione Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. // <![CDATA[
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Gary L. Francione
gfrancione@kinoy.rutgers.edu Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Professor de Direito e Filosofia na Rutgers University, EUA. Conhecido internacionalmente por sua teoria de direitos animais abolicionista, é um crítico implacável das leis do bem-estar animal e da condição de propriedade dos não-humanos.

Conheça a teoria abolicionista de Gary Francione assistindo a 4 apresentações em tradução autorizada para o português: 1. Teoria dos direitos animais / 2. Animais como propriedade / 3. Direitos animais vs. bem-estar animal / 4. Direito Animal. Clique aqui.

Aviso: O professor Gary L. Francione não apóia, necessariamente, pontos de vista expressos nesta publicação, fora aqueles que ele defende em textos de sua própria autoria.

Tradutora autorizada

Regina Rheda
regina.rheda@yahoo.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Escritora premiada, vegana desde o ano 2000 e mora nos EUA. Traduziu o livro Jaulas Vazias, de Tom Regan (Editora Lugano) e é autora do livro Humana festa (Editora Record), o primeiro romance brasileiro a abordar, como tema principal, os direitos animais e o veganismo. Seu website é http://home.att.net/~rheda/RRHPPortg.html.
Pensata Animal nº 22 – Abril de 2009 – http://www.pensataanimal.net

About Alex Avancini

Alex Avancini é anti-especista e incentivador da ação pelos direitos dos animais não humanos.

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