Veganismo: por que não?

por Melissa Martin

via Consciência Efervescente

O veganismo é uma ideia brilhante. Pensando em problemas com soluções, não posso pensar em outra coisa melhor para resolver tantos problemas ao mesmo tempo: o faminto, a saúde do ser humano, o sofrimento dos animais, o aquecimento global, a poluição da água, o mau uso da terra, a poluição do ar, a alteração dos habitats etc. Sim, o veganismo resolveria ou ajudaria a resolver todos esses problemas.

Então, sendo uma ideia tão boa, tão brilhante, a minha pergunta é: por que mais pessoas, especialmente ambientalistas, não seguem uma dieta vegana? Será porque parece inatingível? Será porque as pessoas acham que têm que caminhar sobre a água para serem veganas? Será que as pessoas não tentam seguir uma dieta vegana porque já estão tão habituadas, que não imaginam um dia sequer sem carne no prato? Será porque eles nunca pensaram na conexão entre o que está lá no prato e esses problemas mundiais?

Realmente, comparados com as pessoas que morrem de fome, nós, que já saciamos nossas necessidades básicas (casa, roupa, comida, água, amor etc.), somos privilegiados. Suponho que as pessoas que nem têm comida suficiente ou água potável tenham menos possibilidade de pensar nesses problemas e nessas soluções. Mas por que as pessoas que já têm as necessidades básicas saciadas continuam comendo carne, especialmente por serem bem educadas, cientistas, ambientalistas etc?

É o que me surpreende quando vejo filmes tais como: Uma Verdade Inconveniente; A Décima Primeira Hora (com Leonardo Di Caprio); e este novo filme Food, Inc. (ainda sem tradução para o Brasil), que aborda a conexão entre esses problemas e como vivemos, compramos, usamos o petróleo que temos, mas sempre SEM falar sobre o que comemos.

O filme Food, Inc. (assista ao trailer aqui) fala sobre a industrialização da comida, mas oferece a solução de criar os animais numa fazenda pequena onde serão mortos como nos tempos antigos. Indignou-me! Ignoraram completamente o fato de que criar o animal gasta até 10 vezes mais recursos que uma dieta vegana. E criando os animais com o método de permacultura ou tendo uma fazenda orgânica com animais, ainda há problemas: segundo uma investigação realizada em 2007, por Adrian Williams, da Universidade de Cranfield, na Inglaterra, demonstrou-se que as galinhas criadas num sistema orgânico de free range (soltas ao ar livre) oferecem 20% mais danos ao meio ambiente, porque esses animais vivem mais tempo e por isso comem mais grãos. Além disso, essa investigação demonstrou que ovos orgânicos têm um impacto negativo (14% pior que ovos das galinhas empoleiradas).

A minha pergunta ainda é: Por que essas pessoas tão inteligentes não veem a conexão? Ou melhor, se elas estão conscientes desses fatos, por que continuam comendo carne?

Fui a um congresso de ambientalistas chamado “Bioneers”, em 2007, e questionei muitos ambientalistas. Fui lá porque queria saber se já era um movimento ambientalista-vegano e se não queriam ajuda para que essas pessoas fizessem a conexão. Decidi que faria isto por meio de perguntas e fui como representante da Revista dos Vegetarianos.

Conheci muitos dos diretores das organizações ambientalistas e fiz entrevistas. Lembro bem de que falei com pessoas da Rainforest Action Network e perguntei se eles sugeriam que as pessoas não comessem carne. A resposta foi: “Falamos disso antes, mas as pessoas nos viam como radicais e agora, para não perder participantes, hoje em dia oferecemos carne nas reuniões.” Não acreditei. Falei para eles que, se o problema com a floresta na Amazônia era a produção de carne, seria hipócrita oferecê-la! O rapaz concordou comigo, mas disse que o objetivo era ter mais pessoas no grupo, que o vegetarianismo é radical e que a população em geral não aceita. Fiquei chocada.

Isso também ocorreu quando conheci o diretor da Ocean Conservancy. Fiz a entrevista com ele e obtive a mesma resposta: “Queria atrair as pessoas e dizendo que não poderiam comer peixe não seria a mensagem que desejava”. Ele me confessou que já não come porco porque descobriu como são tratados esses animais. Mas, para mim, uma agência querendo proteger os mares e os animais aquáticos, não os comeria.

Conheci os diretores do filme A Décima Primeira Hora (assista ao trailer aqui) e lhes perguntei: “Por que não mencionaram que se deve eliminar o consumo de animais como uma das soluções?”. Sabe qual foi a resposta? Eles não queriam que o filme parecesse fanático demais. Eles queriam oferecer soluções mais fáceis sem prejudicar a audiência. Um dos diretores disse que eles sabem que o vegetarianismo é uma solução, mas tomaram a decisão consciente de não o inclur no filme.

Como disse, isso foi em 2007. Pode ser que a opinião vá mudar depois de haver mais artigos falando da conexão e com a reportagem das Nações Unidas – “Livestock Impacts on the Environment” (2006) – na qual é mencionado que o consumo de animais causa mais dano ao planeta do que o transporte. Mas esse artigo saiu em 2006. Um ano depois, quando fui ao congresso de Bioneers, ainda enfrentei resistência e, ao meu ver, uma desconexão quase completa entre as organizações ambientais e o vegetarianismo.

Agora que estamos chegando ao final de 2009, estou vendo uma pequena mudança. Vejo que hoje temos mais produtos verdes e que as pessoas estão começando a reciclar. Aos poucos, as pessoas estão entendendo que não faz sentido gastar água e eletricidade e estão vendo que, quanto mais economizarem nessas áreas, mais dinheiro poderão poupar.

Hoje em dia, é mais bacana ser “verde” comparado com anos atrás. Não estamos ainda no momento de ter um mundo vegano — ainda não —, estamos muito longe desse objetivo. Mas estou vendo que o que foi visto como completamente radical e fanático, agora está sendo mais aceito. Acho que as pessoas estão se conscientizando sobre os problemas do meio ambiente e logo verão que não é suficiente apenas reciclar ou mudar uma bomba elétrica. As pessoas estão começando a abrir os olhos, e não só isso, estão começando a mudar seus hábitos para melhor. Quanto mais informação o público tem sobre essa conexão, menos poderão ignorar que temos uma solução viável. Assim será mais difícil de negar. Cada objeção terá uma resposta sobre o veganismo:

”É radical”: Sim, mas o que precisamos hoje em dia é alguma mudança radical. Uma situação extrema precisa de uma medida radical para resolvê-la.

“É marginalizada”: Cada vez mais pessoas estão adotando esse estilo de vida. É bacana!

“É difícil”: Hoje em dia há mais produtos que se parecem com carne ou com os produtos lácteos. Está mais fácil que antes.

“É caro”: Os produtos industrializados têm subsídio do governo enquanto os produtos orgânicos ou naturais não têm. Querendo poupar dinheiro, coma o alimento na forma mais natural. É mais barato comer grãos, legumes, frutas e verduras da estação. O dinheiro é poder e, se queremos mudar o mundo, temos que parar de gastar dinheiro com as indústrias que causam danos ao planeta e investir nas que oferecem soluções. É importante apoiar as empresas ou organizações que estão produzindo coisas sustentáveis. Você pode não só escolher com o garfo, mas também com o seu dinheiro.

“Tem gosto ruim”: Caso não goste do sabor, não desista do veganismo completamente, prove outro produto ou outra opção. Veja jornais ou sites que dão sugestões para saber qual produto as outras pessoas preferem. Refletindo no que está contribuindo, a percepção pode mudar.

Não podemos forçar ninguém a ser vegano. Só podemos ajudá-lo a considerar os fatos, a enxergar as opções positivas e as consequencias negativas caso não aja de acordo com elas. Acredito que isto não seja uma questão de inteligência, pois em muitas circunstâncias, nas quais sabemos o que devemos fazer, ainda assim escolhemos fazer o oposto, mesmo sabendo que teremos consequências negativas. Então o que vai motivar as pessoas a realmente mudar o estilo de vida e eliminar esse hábito de consumir animais?

Ao final, eu pergunto: cada um de nós é parte da solução ou parte do problema. O que você deseja ser?

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About Alex Avancini

Alex Avancini é anti-especista e incentivador da ação pelos direitos dos animais não humanos.

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