Criação em escala industrial: Uma eterna ‘Treblinka’ animal

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– Confira um ótimo  Artigo sobre “Criação em escala industrial: Uma eterna ‘Treblinka’ animal

Marco Mancassola *

Às vésperas da cúpula sobre mudanças climáticas de Copenhague, em dezembro passado, Paul McCartney se apresentou no Parlamento Europeu. Naquela ocasião, fez um discurso em favor da redução do consumo de carne, lembrando o fato bem documentado de que a criação de animais em escala industrial está entre as primeiras causas da emissão de gás carbônico e do aquecimento global.

Meio mundo reagiu, mas com as sobrancelhas levantadas, por causa da aparição de Sir Paul, quando não com aberto escárnio. Fora do parlamento, um grupo do lobby dos criadores de animais organizava um churrasco a céu aberto, com hambúrgueres e salsichas, respondendo com sarcasmo ao discurso do baronês.

Ora, se de um lado pode-se compreender a hostilidade para com o enésimo bilionário famoso que pretende dar lições de ética, de outro lado, esse episódio parece ser um exemplo da reação mais comum a um tema, como o vegetarianismo, simples e pacato, porém, pelo que parece, perturbador.

Como todo vegetariano sabe por experiência, poucos argumentos causam um tal misto de incompreensão, suspeita, ironia apática do que a escolha por não consumir carne. Entre as clássicas objeções movidas a quem não come alimentos de procedência animal, duas estão muito enraizadas, uma ligada à tradição cultural (o homem cria animais desde o início dos tempos), a outra à tradição natural (os animais são comidos por outros animais). Objeções que podiam talvez ter alguma conexão há até um século, quando a criação de animais ainda se baseava em métodos tradicionais e em uma figura de criador que conhecia e respeitava os seus animais.

Hoje, comer carne significa quase sempre consumir os produtos da criação e do abate industriais, gigantescas multinacionais que gerem o nascimento e a morte de bilhões e bilhões de seres vivos. Um sistema cientificamente organizado sobre a dor, a tortura, a manipulação genética, a reclusão em espaços superlotados até a morte por sufocamento, os métodos de morte mais horroríficos.

Uma eterna Treblinka

Parece que Adolf Hitler sofria de estômago nervoso e de flatulência. Quando o ditador descobriu que reduzir a carne tornava menos fedorentas as suas emissões intestinais, tentou privilegiar os consumos vegetais. Na realidade, apesar da lenda de que fosse vegetariano, Hitler nunca abandonou as adoradas salsichas bávaras e outros pratos de carne e sempre foi feroz com os vegetarianos de verdade. Baniu as associações vegetarianas na Alemanha e mais tarde nos territórios ocupados. O pacifista e vegetariano alemão Edgar Kupfer-Koberwitz teve que se refugiar em Paris e depois na Itália, onde foi por fim preso pela Gestapo e enviado a Dachau.

Todos esses são casos que eram lembrados em um ensaio de alguns anos atrás, “Un’eterna Treblinka”, de Charles Patterson (publicado na Itália pela edições Riuniti, 320 páginas). Além de se ocupar dos hábitos alimentares do Führer, Patterson analisa a gênese do modelo de extermínio nos campos de concentração nazistas, chegando a sugerir que esse modelo tinha uma forma de origem comum e numerosas afinidades operativas com o sistema industrial de criação e abate norte-americano.

Cadeia de montagem

Se uma comparação semelhante pode parecer fora de lugar para alguns, deve se lembrar que o primeiro a fazê-la foi, na realidade, Isaac Bashevis Singer: foi, de fato, o autor da Família Moskat que sugeriu que, “para os animais, trata-se de uma eterna Treblinka”, evocando o fantasma do famigerado campo de extermínio.

De outro lado, a eficiente máquina de abate animal já havia inspirado outras empresas. Henry Ford, o industriário dos automóveis, confessou que havia sido a visita a um matadouro de Chicago que lhe deu a ideia para um sistema de trabalho baseado na cadeia de montagem. Nos abates, tratava-se de desmembrar cadáveres animais no menor tempo possível. Nas fábricas, se trataria de montar automóveis em um tempo também veloz.

A tendência a liquidar o vegetarianismo como uma questão reservada a boas almas ou a intelectuais sabichões poderia quase encontrar confirmação, em um primeiro olhar superficial, diante de um texto recém publicado na Itália: “Se niente importa. Perché mangiamo gli animali?” [Se nada importa. Por que comemos os animais?], de Jonathan Safran Foer (Ed. Guanda, 368 páginas).

Eis um jovem e famoso escritor norte-americano, com residência em uma bonita quadra do Brooklyn, que, com o nascimento do primeiro filho, deixou-se tomar por angústias burguesas sobre o que seria justo dar-lhe de comer e se colocou a escrever uma investigação-reflexão sobre o mais controverso dos alimentos: a carne. Poderia soar assim a história do livro. Não fosse pelo fato de que Foer é um escritor autêntico, ou seja, movido por um senso de plena necessidade e capaz de se imergir no tema com uma profundidade estilístico-literária que corresponde a uma profundidade de análise filosófica, de ressonância metafórica, de envolvimento emotivo.

Fruto de três anos de trabalho, impecavelmente documentado, muito irônico, de modo a evitar os tons de uma lição de moral e muito dramático, chegando a provocar tremores de desconforto abissal, o livro causou barulho nos Estados Unidos, um misto de comentários entusiasmados e muito hostis.

Na Itália também, vários resenhistas preferiram levantar um muro de ceticismo, tratando o livro como o enésimo caso de choque entre os castelos no ar dos vegetarianos e o realismo dos carnívoros, os quais, pelo contrário, estariam comprometidos a pensar em questões mais sérias. Com notável desonestidade crítica, a jornalista literária mais irritante dos Estados Unidos, Michiko Kakutani, do New York Times, liquidava o livro perguntando por que Foer não se dedicava a causas melhores.

Pântanos tóxicos

“A carne levanta questões filosóficas relevantes e é uma indústria de mais de 140 bilhões de dólares por ano, que ocupa quase um terço das terras emersas do planeta, condiciona os ecossistemas marinhos e pode também determinar o clima futuro sobre a Terra”, lembra Foer com concisão no seu livro.

E diz mais adiante: “Quão destrutiva deve ser uma preferência culinária antes de nos fazer decidir comer outra coisa?”. A indústria da criação defende que o seu objetivo é saciar o mundo, mas é difícil ver como um sistema que consome recursos agrícolas colossais e faz nascer animais pela genética tão comprometida que não podem mais se reproduzir pela via natural pode ter o destino do mundo no coração. Quem parece ser alimentada, pelo contrário, é a obsessão que nos faz consumir uma quantidade insensata de proteínas animais, muitas mais do que a humanidade jamais consumiu anteriormente.

Entre as tantas imagens eficazes que surgem do livro está aquela dos pântanos tóxicos ao lado dos grandes criadouros norte-americanos. Imaginemos poços pretos ao ar livre, grandes como campos de futebol, destinados a recolher os excrementos dos animais: o descarregamentos desses pântanos acabam muitas vezes em contato com rios e franjas aquíferas, com efeitos terrificantes. Quando estão a ponto de transbordar, às vezes a solução é a de espalhá-los literalmente pelos ares, “um gêiser de merda que espalha um aerosol de fezes, criando redemoinhos gasosos capazes de provocar graves danos neurológicos. As comunidades que vivem nos arredores desses criadouros intensivos reclamam de problemas de sangramentos persistentes no nariz, dores de ouvido, diarreias crônicas e ardência no pulmão”.

Quando Foer entra, numa noite, em uma criação de perus na companhia de uma jovem ativista, à primeira vista os pintinhos amassados no pavilhão lhe parecem todos iguais. Estão ali, transtornados, sob as impassíveis luzes artificiais. Só quando os seus olhos se habituam a distinguir entre aquela massa de animais, ele se dá conta da quantidade desconcertante de pintinhos deformados, desidratados, cobertos de sangue e de chagas, e daqueles que jazem já mortos.

A casuística da dor na indústria da carne é interminável e documentada por milhares de confissões de trabalhadores, materiais gravados em segredo, estatísticas de entidades governamentais. Abrange dos milhões de frangos que acabam vivos nos caldeirões com água fervente, aos bovinos que, pela própria negligência na cadeia de trabalho, acabam tendo sua pele retirada enquanto ainda estão conscientes. Há animais que são abatidos propositalmente de modo moderado, de modo que o coração ainda esteja batendo quase são degolados e o dessangramento seja mais veloz. Uma quantidade impressionante de aves com fraturas nos ossos por causa dos procedimentos pelos quais são transportadas. Bicos e rabos cortados, dentes arrancados, filhotes suínos castrados, tudo sem anestesia. Reclusão e ausência de movimento que provocam problemas ósseos, deformidades e loucura, animais que se esfregam contra as grades até ficarem cobertos de chagas infeccionadas.

Existem depois as sevícias praticadas pelos trabalhadores frustrados e mal pagos: porcos jogados para se afogarem nos pântanos dos fluidos, porcas prenhas agredidas com bastões, aves esmagadas com os pés e jogadas contra o muro, cigarros apagados no corpo dos animais, golpes de martelo, arames elétricos no ânus, tudo com a indiferença dos superiores. Não são casos isolados, mas sim fenômenos tão extensivos que constituem a norma.

Sem contar o bombardeio de antibióticos, hormônios e outros medicamentos para substituir a total ausência de ambiente natural, as manipulações genéticas que fazem nascer animais-monstros, incapazes de sobreviver além da sua própria adolescência, sempre mais deformados e vítimas de sofrimentos congênitos. Nascer na dor, viver na dor, morrer na dor: a organização sistemática e sua larga escala de uma quantidade semelhante de dor não tem precedentes históricos. Certamente, não se trata de dor humana. Mas ainda queremos negar, contra toda evidência científica e de bom senso, que os animais podem experimentar sensações e ter uma vita emotiva?

Os utilizadores finais

Enquanto o livro de Foer fornece dados relativos principalmente à situação norte-americana, a realidade europeia parece fornecer oficialmente alguma proteção a mais para os animais. Mas é fácil compreender que, em todos os lugares, bilhões de seres vivos são tratados como objetos, elementos de uma cadeia de montagem-desmontagem, prisioneiros de um processo técnico que não os reconhece como vivos. Abre-se espaço para a atrocidade. Do outro lado, estão os consumidores, utilizadores finais dessa atrocidade, felizes de não se fazer muitas perguntas sobre o que há por trás da carne plastificada, anônima e de baixo preço que encontram no supermercado.

Como diz um criador tradicional a Foer, que tenta combater os sistemas da criação industrial: “Os animais pagaram caro pelo nosso desejo de ter tudo em qualquer momento e a um preço irrisório”. Enquanto isso, a avó de Foer, judia que escapou pela Europa no tempo da Segunda Guerra Mundial, lembra ao neto que é muito perigoso comer sem reconhecer o próprio alimento. Mesmo reduzida à fome, ela se recusou, por tradição kosher, a comer porcos: “Se nada importa, não há mais nada para salvar”.

* A reportagem é de Marco Mancassola, publicada no jornal Il Manifesto, 26-02-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

(IHU On-line)

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About Alex Avancini

Alex Avancini é anti-especista e incentivador da ação pelos direitos dos animais não humanos.

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